Uma ilha deserta e pavorosa...

Ao ver a cegueira e a miséria do homem, ao contemplar todo o universo mudo e o homem sem luz, abandonado a si próprio, como que perdido neste recanto do universo, sem saber quem o pôs lá, para que é que o fizeram vir, o que virá a ser dele ao morrer, incapaz de todo o conhecimento, encho-me de pavor, como um homem que tivessem trazido adormecido até a uma ilha deserta e pavorosa, e que despertasse sem conhecer onde estava e sem ter como sair de lá. E sobre isso, admiro-me como não se entra de todo em desespero de tão miserável estado. Vejo outras pessoas perto de mim, de uma natureza semelhante: pergunto-lhes se são mais instruídas do que eu, dizem-me que não; e sobre isso, esses miseráveis perdidos, tendo olhado à sua volta e visto alguns objectos aprazíveis, a eles se entregaram e se prenderam. Por mim, não consegui prender-me e, considerando o quanto parece haver outra coisa que não aquilo que vejo, indaguei se não teria este Deus deixado alguma marca de si.
Vejo várias religiões contrárias e, portanto, todas falsas, excepto uma. Cada uma deseja ser crida pela sua própria autoridade e ameaça os incrédulos. A esse respeito, não creio, então, nelas. Qualquer um pode dizer isto; qualquer um se pode dizer profeta. Mas vejo a religião cristã, em que encontro profecias e isso nem todos podem fazer.
BLAISE PASCAL, Pensées, 693 [Brunschvicg], Paris, Le Livre de Poche, 1993, pp. 323-324.

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