Um fazer

Os fazeres do homem são inumeráveis e aquele a que chamamos filosofia encontra-se dentro do grupo especial entitulado com o nome geral de "conhecer". Conhecer é o que o homem faz porque caíu na dúvida sobre algo e para chegar a ter a certeza sobre isso ou saber.
O saber é aquela situação do homem perante algo, na qual este deixou de ser questão para ele, ele está perfeitamente seguro do que é que tem de fazer com esse algo. Portanto, saber algo é saber a que se ater no que respeita a isso que foi questão para si.
Entendida esta definição, adverte-se rigorosamente que o saber é uma situação utópica. Não só porque o homem não sabe nunca, não tem nunca a certeza sobre tudo o que lhe urgiria saber, mas também porque mesmo as suas certezas parciais, sobre isto ou aquilo, lhe suscitam novas questões e o impedem de estar perfeitamente seguro delas.
Se o homem soubesse, não se ocuparia em conhecer. O facto e o próprio nome da filosofia impedem de definir o ente humano como sapiens, a não ser que se entenda este atributo não como uma posse, mas, ao contrário, como uma privação e necessidade, e se diga que o homem é o ente que necessita, que tem mister em saber e, porque necessita, se esforça por lográ-lo, se ocupa em conhecer, faz o que pode para saber.
A situação do homem não é de puro ou pleno saber, mas tampouco é de puro não saber. É de ignorância. O ente que não soubesse nada permaneceria feliz nessa situação negativa e não estaria em privação.
A situação efectiva do homem pode qualificar-se como “a verdade insuficiente”. O homem tem sempre certezas ou verdades, mas tem-nas sem possuir o seu último fundamento e, além disso, em colisão umas com as outras, reclamando uma última instância que dirima o seu antagonismo. Em suma, uma certeza de carácter radical. O saber a que se ater a respeito desta instância radical de todas as verdades, portanto, o descobrimento da verdade das verdades é a aspiração que dispara e move o fazer filosófico.
É por isso que a certeza ou verdade filosófica se apresenta desde logo sob duas condições. Primeiro, que seja última instância ou verdade primeira, portanto, não suponha outras instâncias nem verdades. Segundo, que o seja para todas as demais verdades em questão. Dito noutros termos, a certeza filosófica aparece constituída pelas características da autonomia e da universalidade.
A filosofia, aparece, pois, como um fazer particular dentro de outro fazer mais geral que é conhecer. Como conhecimento autónomo e universal, quer dizer, como certeza radical ou última instância das verdades, distingue-se das ciências. Uma ciência não é nunca autónoma nem universal, pelo contrário, sabe-se a si mesma parte de um todo de verdades mais amplo que ela supõe, em que se apoia e a que nos transporta. As ciências são uma constante apelação à filosofia.
Por outro lado, a filosofia é homogénea às ciências na medida em que é, como elas, conhecimento – portanto, esforço desde a dúvida ou incerteza em que se caíu até uma certeza que a vença. Mas note-se tudo o que implica a ocupação que é conhecer. Implica: 1º, que o homem tenha caído, antes, em incerteza; 2º, que, por sua vez, supõe e leva em si um estado anterior de certeza; 3º, um terceiro estado a que se aspira constituído por uma certeza de carácter distinto da inicial, porque aquela era prévia à dúvida e estava intacta dela, ao passo que esta nova certeza postulada tem de consistir na vitória sobre a dúvida e, em consequência, tem de a levar sempre dentro de si.
Conhecer é, pois, formalmente, superação da dúvida, portanto, seguir duvidando e, por sua vez, dominar essa dúvida. Por isso, a certeza que o conhecimento busca é uma constante criação de si mesma. Na certeza inicial estava-se sem mais: na certeza cognoscitiva ou verdade, só se está contanto que se faça ou crie frente à dúvida e em luta com ela.
É isto que significa dizer-se que a verdade ou certeza de conhecimento tem que ser provada, em contraste com a certeza em que o homem se encontrava sem saber como, que ele não se tinha feito, antes recebe por tradição e autoridade.
A aspiração a ser prova de si mesma, o ter que ser certeza que se faz a si mesma, diferencia a filosofia da religião, com a qual tem em comum o carácter de universalidade.
Por outro lado, também separa a filosofia doutras certezas que não são dadas, reveladas, mas que se formam no homem, ainda que não consistam em prova. Tais são a poesia e a “experiência da vida”.
JOSÉ ORTEGA Y GASSET, Ideas y Creencias, Madrid, Alianza Editorial, 1995, pp. 13-16.

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