Quinta-feira, Maio 11, 2006

Iago

(Enc. Ebrahim Alkazi, 1969)

A personagem de Iago... pertence a um tipo de personagens comum a Shakespeare e, ao mesmo tempo, que lhe é peculiar - a saber, personagens de grande actividade intelectual, acompanhada de uma total ausência de princípio moral e, portanto, revelando-se constantemente à custa dos outros e procurando confundir as distinções práticas do certo e do errado, referindo-as a um qualquer padrão forçado de refinamento especulativo. - Algumas pessoas, mais simpáticas do que sábias, pensaram que toda a personagem de Iago era não-natural. Shakespeare, que era tão bom filósofo como poeta, pensava doutra maneira. Ele sabia que o amor pelo poder, que é outro nome para o amor da maldade, é natural ao homem. Ele sabia isto tão bem como, ou melhor do que se lhe tivesse sido demonstrado por um diagrama lógico, simplesmente por ver as crianças remexerem na porcaria, ou matarem moscas por divertimento. Poderíamos perguntar àqueles que pensam ser a personagem de Iago não-natural, porque vão eles vê-la interpretada, senão pelo interesse que excita, o gume mais cortante que põe na sua curiosidade e imaginação? Porque vamos nós ver tragédias em geral? Porque lemos sempre relatos, nos jornais, de terríveis incêndios e assassínios chocantes, senão pela mesma razão? Porque são tantas as pessoas que assistem a execuções e julgamentos, ou porque se deliciam, quase universalmente, as classes mais baixas em diversões bárbaras e na crueldade para com os animais, senão porque há uma tendência natural no espírito para a excitação forte, um desejo de ter as suas faculdades inflamadas e estimuladas ao extremo? Sempre que este princípio não esteja sob o freio da humanidade ou sob o do sentimento da obrigação moral, não há excessos que ele não origine a partir de si mesmo, sem o concurso de qualquer outro motivo, seja da paixão, seja do egoísmo. Iago é apenas um exemplo extremo do género; quer dizer, da actividade intelectual doentia, com uma quase perfeita indiferença pelo bem ou pelo mal morais, ou antes, com uma preferência pelo último, porque este concorda mais com a sua propensão favorita, dá maior sabor aos seus pensamentos e alcance às suas acções. - Note-se também (em atenção àqueles que são por enquadrar todas as acções humanas nas máximas de Rochefoucault) que ele é completamente ou quase tão indiferente à sua própria sorte como à dos outros; que corre todos os riscos por uma vantagem banal e duvidosa; e é ele mesmo o joguete e a vítima da sua paixão dominante -um incorrigível amor pela maldade-, uma insaciável ânsia pela acção do tipo mais difícil e perigoso. O nosso «porta-estandarte» é um filósofo que imagina que uma mentira que mata tem mais peso do que uma aliteração ou uma antítese; que pensa ser uma experimentação fatal na paz de uma família uma coisa melhor do que observar as palpitações no coração de uma pulga numa bomba de ar; que maquina a ruína dos seus amigos como um exercício para o seu entendimento e apunhala homens na escuridão para obstar ao ennui.

WILLIAM HAZLITT, Characters of Shakespeare's Plays, in HAROLD BLOOM, Shakespeare, The Invention of the Human, London, Fourth Estate, 1999, pp. 432-33.

3 Comments:

Anonymous xuxuzinha said...

Não sei se sou capaz. Não sou poeta, e no entanto, é preciso um poema para exprimir completamente o modo como me sinto em relação a ti. Por isso a mente deambula-me.Vi-te, a ti, à muito atrás, no dia em que te conheci. Tu eras belo, sensível, e ferido com a dor que vem quando algo de especial é roubado. E por um motivo que não tenho a certeza se compreeendo fiquei inspirada, para te contar uma história. Esta parte da história nunca me abondonou, mesmo depois deste tempo todo. Mesmo não tendo eu estado lá, tu só me viste uma vez, e lembro-me de ter ficado maravilhada com a força que mostraste nesse dia. Ainda não consigo imaginar o que se passou pela tua cabeça quando entraste na minha vida, ou como te deves ter sentido ao falar comigo. No entanto, sei precisamente o que senti... o meu coração tinha sido conquistado, preso num laço por um poeta lisboeta, e sabia cá por dentro que tinha sido tua. Quem era eu para questionar um amor que cavalgava as estrelas cadentes e rugia como as ondas que se esmagam? Porque era isso que acontecia entre nós e o que infelizmente não acontece hoje.
Amo-te por muitas razões, especialmente pelas tuas paixões, porque foram sempre aquelas coisas que são as mais belas da vida. Amor, e poesia, e amizade, e beleza, e natureza. Os teus amigos dizem como tu és especial para eles, e sempre que o fazem, levam-me a sentir a mulher mais afortunada do mundo. És o meu melhor amigo bem como meu 'amante', e não sei de que lado de ti gosto mais. Tens algo dentro de ti, Carlos, algo de belo e forte. Bondade, é o que vejo quando olho para ti, isso é o que toda a gente vê. Deus está contigo, tem que estar, porque és a coisa mais próxima de um anjo, que alguma vez encontrei. Por isso te amo tão profundamente, tão icrivelmente tanto que descobrirei uma maneira de regressar para ti, independentemente da minha timidez. E é aqui que entra a história, quando eu estiver só e perdida... AMO-TE!

Quinta-feira, Setembro 21, 2006 7:02:00 PM  
Anonymous Miriam said...

Uma declaração com sentido de humor! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

Quarta-feira, Outubro 11, 2006 11:23:00 PM  
Anonymous Since 1968 said...

estás apaixonada? tens acerteza?

Terça-feira, Novembro 21, 2006 9:50:00 PM  

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