Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Fazer por isso

Agora que me tornei naquilo que sou, todas essas coisas me parecem idiotas. De que é que eu precisava com todo aquele dinheiro? E que bem é que a educação fez à Celia? Ela estudou literatura, mas o curso todo consistia em pegar num mau escritor qualquer e atribuir-lhe significados com que nem ele próprio sonhou. E também os chamados bons escritores - são bons? Que coisas importantes é que o Eliot ou o Joyce tinham em mente quando escreviam as suas frases vazias? Que é que eles pretendiam? Uma página do Caminho dos Justos contém mais sabedoria e psicologia do que todos os textos deles. E muitas vezes também são maçadores, porque não têm nada para dizer. Muitas vezes, ela lia-me os seus ensaios literários. Tinha aprendido um bom Inglês. Mas todo este tempo continuámos a ler os jornais yiddish e não perdíamos uma palavra do que você escrevia. Fosse o que fosse que você dizia, ao menos dizia-o claramente. Você conhece todas as falhas do homem moderno, não há dúvida, mas não quer tirar as consequências do seu conhecimento. Se você desse um passo em frente, tornar-se-ia um Judeu completo.
'Conhecer as falhas não é suficiente', interrompi.
'Você também conhece todos os traços do verdadeiro Judeu.'
'Isso também não é suficiente. Para isso, você tem de ter a fé de que tudo o que está dito nos livros sagrados foi dado a Moisés no Monte Sinai. Infelizmente, eu não tenho essa fé.'
'Porque é que diz “infelizmente”?'
'Porque invejo aqueles que a têm.'
'Falaremos mais sobre isto. A fé não vem por si. Tem de se fazer por isso.'

ISAAC BASHEVIS SINGER, The Penitent, Penguin, Harmondsworth, 1986, pp. 16-17.

Domingo, Setembro 23, 2007

Heraclito


I
Entramos e não entramos, estamos e não estamos nos mesmos rios.

HERACLITO, DK 49a.


II
Parece que o Heraclito diz que todas as coisas mudam e que nada permanece, e que os seres se assemelham à corrente de um rio; diz ele que não se poderá mergulhar duas vezes no mesmo rio.

PLATÃO, Crátilo, 402a.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Como os originais...

Isabel da Boémia, Princesa Palatina

Em primeiro lugar, considero que há em nós certas noções primitivas que são como os originais, sob o padrão dos quais formamos todos os nossos outros conhecimentos. E há bem poucas dessas noções; pois, para além das mais gerais, do ser, do número, da duração, etc., que convêm a tudo o que podemos conceber, não possuímos, para o corpo em particular, senão a noção da extensão, da qual se seguem as da figura e do movimento; e, para a alma apenas, não possuímos senão a [noção] do pensamento, na qual estão compreendidas as percepções do entendimento e as inclinações da vontade; enfim, para a alma e o corpo juntos, não possuímos senão a noção da sua união, da qual depende a da força que a alma tem de mover o corpo, e o corpo de agir sobre a alma, causando os seus sentimentos e as suas paixões.
[Descartes a Isabel, 21 de Maio de 1643]
RENÉ DESCARTES, Correspondance avec Élisabeth et autres lettres, Paris, Flammarion, 1989, p. 68.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Um dia de sol


Ao todo, vinte e seis navios tinham sido afundados, incluindo dois navios-hospitais, e mais de duas mil pessoas perdido a vida. Praticamente todos os refugiados e soldados gregos feridos a bordo do ferry Hellas morreram queimados. Para os que largavam as bombas, o horror, em baixo, permanecia distante, se não abstracto. ‘Um dia de sol’, recordava o piloto de um Junkers 88, a 25 de Abril, ‘tinham-nos enviado para procurar navios que embarcassem tropas britânicas nas áreas de Atenas, Corinto e Nauplia’. Tentou identificar Micenas. ‘Disse à minha tripulação que sobrevoavamos um território que tinha visto pelo menos três mil anos de história grega... As aldeias e as cidadezinhas pareciam um pátio de recreio com pontos brancos’. Sobre o porto de Nauplia, ‘tudo parecia intocado e em paz. Mas havia ali qualquer coisa que fez o meu coração bater mais depressa’. Um paquete ancorado – uma ‘visão fascinante’ – oferecia ‘um alvo único’. O apontador preparou-se quando o avião se inclinou e depois mergulhou. O piloto levantou o nariz do aparelho no momento crucial e carregou no botão vermelho. O operador e o artilheiro esticaram os pescoços e avistaram as explosões. ‘Acertámos-lhe! Duas em cheio e duas bombas falharam por pouco. Cascatas de água e chamas altas. O que é que senti? Alívio, depois de máxima tensão, orgulho de que uma tripulação jovem tivesse tido sucesso. Pena, por um belo navio ter desaparecido. Satisfação, por ele nunca mais transportar forças britânicas, e isso foi tudo o que contou neste dia.’
ANTONY BEEVOR, Crete: The Battle and the Resistance, London, John Murray, 2005, pp. 51-52.

Terça-feira, Janeiro 23, 2007

Uma ilha deserta e pavorosa...


Ao ver a cegueira e a miséria do homem, ao contemplar todo o universo mudo e o homem sem luz, abandonado a si próprio, como que perdido neste recanto do universo, sem saber quem o pôs lá, para que é que o fizeram vir, o que virá a ser dele ao morrer, incapaz de todo o conhecimento, encho-me de pavor, como um homem que tivessem trazido adormecido até a uma ilha deserta e pavorosa, e que despertasse sem conhecer onde estava e sem ter como sair de lá. E sobre isso, admiro-me como não se entra de todo em desespero de tão miserável estado. Vejo outras pessoas perto de mim, de uma natureza semelhante: pergunto-lhes se são mais instruídas do que eu, dizem-me que não; e sobre isso, esses miseráveis perdidos, tendo olhado à sua volta e visto alguns objectos aprazíveis, a eles se entregaram e se prenderam. Por mim, não consegui prender-me e, considerando o quanto parece haver outra coisa que não aquilo que vejo, indaguei se não teria este Deus deixado alguma marca de si.
Vejo várias religiões contrárias e, portanto, todas falsas, excepto uma. Cada uma deseja ser crida pela sua própria autoridade e ameaça os incrédulos. A esse respeito, não creio, então, nelas. Qualquer um pode dizer isto; qualquer um se pode dizer profeta. Mas vejo a religião cristã, em que encontro profecias e isso nem todos podem fazer.


BLAISE PASCAL, Pensées, 693 [Brunschvicg], Paris, Le Livre de Poche, 1993, pp. 323-324.

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Um fazer


Os fazeres do homem são inumeráveis e aquele a que chamamos filosofia encontra-se dentro do grupo especial entitulado com o nome geral de "conhecer". Conhecer é o que o homem faz porque caíu na dúvida sobre algo e para chegar a ter a certeza sobre isso ou saber.
O saber é aquela situação do homem perante algo, na qual este deixou de ser questão para ele, ele está perfeitamente seguro do que é que tem de fazer com esse algo. Portanto, saber algo é saber a que se ater no que respeita a isso que foi questão para si.
Entendida esta definição, adverte-se rigorosamente que o saber é uma situação utópica. Não só porque o homem não sabe nunca, não tem nunca a certeza sobre tudo o que lhe urgiria saber, mas também porque mesmo as suas certezas parciais, sobre isto ou aquilo, lhe suscitam novas questões e o impedem de estar perfeitamente seguro delas.
Se o homem soubesse, não se ocuparia em conhecer. O facto e o próprio nome da filosofia impedem de definir o ente humano como sapiens, a não ser que se entenda este atributo não como uma posse, mas, ao contrário, como uma privação e necessidade, e se diga que o homem é o ente que necessita, que tem mister em saber e, porque necessita, se esforça por lográ-lo, se ocupa em conhecer, faz o que pode para saber.

A situação do homem não é de puro ou pleno saber, mas tampouco é de puro não saber. É de ignorância. O ente que não soubesse nada permaneceria feliz nessa situação negativa e não estaria em privação.
A situação efectiva do homem pode qualificar-se como “a verdade insuficiente”. O homem tem sempre certezas ou verdades, mas tem-nas sem possuir o seu último fundamento e, além disso, em colisão umas com as outras, reclamando uma última instância que dirima o seu antagonismo. Em suma, uma certeza de carácter radical. O saber a que se ater a respeito desta instância radical de todas as verdades, portanto, o descobrimento da verdade das verdades é a aspiração que dispara e move o fazer filosófico.
É por isso que a certeza ou verdade filosófica se apresenta desde logo sob duas condições. Primeiro, que seja última instância ou verdade primeira, portanto, não suponha outras instâncias nem verdades. Segundo, que o seja para todas as demais verdades em questão. Dito noutros termos, a certeza filosófica aparece constituída pelas características da autonomia e da universalidade.

A filosofia, aparece, pois, como um fazer particular dentro de outro fazer mais geral que é conhecer. Como conhecimento autónomo e universal, quer dizer, como certeza radical ou última instância das verdades, distingue-se das ciências. Uma ciência não é nunca autónoma nem universal, pelo contrário, sabe-se a si mesma parte de um todo de verdades mais amplo que ela supõe, em que se apoia e a que nos transporta. As ciências são uma constante apelação à filosofia.
Por outro lado, a filosofia é homogénea às ciências na medida em que é, como elas, conhecimento – portanto, esforço desde a dúvida ou incerteza em que se caíu até uma certeza que a vença. Mas note-se tudo o que implica a ocupação que é conhecer. Implica: 1º, que o homem tenha caído, antes, em incerteza; 2º, que, por sua vez, supõe e leva em si um estado anterior de certeza; 3º, um terceiro estado a que se aspira constituído por uma certeza de carácter distinto da inicial, porque aquela era prévia à dúvida e estava intacta dela, ao passo que esta nova certeza postulada tem de consistir na vitória sobre a dúvida e, em consequência, tem de a levar sempre dentro de si.
Conhecer é, pois, formalmente, superação da dúvida, portanto, seguir duvidando e, por sua vez, dominar essa dúvida. Por isso, a certeza que o conhecimento busca é uma constante criação de si mesma. Na certeza inicial estava-se sem mais: na certeza cognoscitiva ou verdade, só se está contanto que se faça ou crie frente à dúvida e em luta com ela.
É isto que significa dizer-se que a verdade ou certeza de conhecimento tem que ser provada, em contraste com a certeza em que o homem se encontrava sem saber como, que ele não se tinha feito, antes recebe por tradição e autoridade.
A aspiração a ser prova de si mesma, o ter que ser certeza que se faz a si mesma, diferencia a filosofia da religião, com a qual tem em comum o carácter de universalidade.
Por outro lado, também separa a filosofia doutras certezas que não são dadas, reveladas, mas que se formam no homem, ainda que não consistam em prova. Tais são a poesia e a “experiência da vida”.

JOSÉ ORTEGA Y GASSET, Ideas y Creencias, Madrid, Alianza Editorial, 1995, pp. 13-16.

Domingo, Dezembro 31, 2006

Saber

Contava-se uma anedota sobre o meu pai, que era músico. Está ele num lado qualquer com amigos, onde, vindos de um rádio ou de um fonógrafo, ressoam os acordes de uma sinfonia. Os amigos, todos eles músicos ou melómanos, reconhecem imediatamente a Nona de Beethoven. Perguntam ao meu pai: «É o quê, esta música?» E ele, após uma longa reflexão: «Isto parece-se com Beethoven.» Todos retêm o riso: o meu pai não tinha reconhecido a Nona Sinfonia! «Tens a certeza? – Sim, diz o meu pai, do último período do Beethoven. – Como podes tu saber que é o seu último período?» O meu pai, então, chama-lhes a atenção para uma certa ligação harmónica que o Beethoven mais novo jamais teria podido utilizar.

MILAN KUNDERA, Le rideau, Paris, Gallimard, 2005, p. 13.

Domingo, Dezembro 17, 2006

Está quase...

Sábado, Novembro 25, 2006

Estou quase a chegar...

Sábado, Novembro 18, 2006

Já estou a caminho, já estou a caminho!...

Quinta-feira, Maio 11, 2006

Iago

(Enc. Ebrahim Alkazi, 1969)

A personagem de Iago... pertence a um tipo de personagens comum a Shakespeare e, ao mesmo tempo, que lhe é peculiar - a saber, personagens de grande actividade intelectual, acompanhada de uma total ausência de princípio moral e, portanto, revelando-se constantemente à custa dos outros e procurando confundir as distinções práticas do certo e do errado, referindo-as a um qualquer padrão forçado de refinamento especulativo. - Algumas pessoas, mais simpáticas do que sábias, pensaram que toda a personagem de Iago era não-natural. Shakespeare, que era tão bom filósofo como poeta, pensava doutra maneira. Ele sabia que o amor pelo poder, que é outro nome para o amor da maldade, é natural ao homem. Ele sabia isto tão bem como, ou melhor do que se lhe tivesse sido demonstrado por um diagrama lógico, simplesmente por ver as crianças remexerem na porcaria, ou matarem moscas por divertimento. Poderíamos perguntar àqueles que pensam ser a personagem de Iago não-natural, porque vão eles vê-la interpretada, senão pelo interesse que excita, o gume mais cortante que põe na sua curiosidade e imaginação? Porque vamos nós ver tragédias em geral? Porque lemos sempre relatos, nos jornais, de terríveis incêndios e assassínios chocantes, senão pela mesma razão? Porque são tantas as pessoas que assistem a execuções e julgamentos, ou porque se deliciam, quase universalmente, as classes mais baixas em diversões bárbaras e na crueldade para com os animais, senão porque há uma tendência natural no espírito para a excitação forte, um desejo de ter as suas faculdades inflamadas e estimuladas ao extremo? Sempre que este princípio não esteja sob o freio da humanidade ou sob o do sentimento da obrigação moral, não há excessos que ele não origine a partir de si mesmo, sem o concurso de qualquer outro motivo, seja da paixão, seja do egoísmo. Iago é apenas um exemplo extremo do género; quer dizer, da actividade intelectual doentia, com uma quase perfeita indiferença pelo bem ou pelo mal morais, ou antes, com uma preferência pelo último, porque este concorda mais com a sua propensão favorita, dá maior sabor aos seus pensamentos e alcance às suas acções. - Note-se também (em atenção àqueles que são por enquadrar todas as acções humanas nas máximas de Rochefoucault) que ele é completamente ou quase tão indiferente à sua própria sorte como à dos outros; que corre todos os riscos por uma vantagem banal e duvidosa; e é ele mesmo o joguete e a vítima da sua paixão dominante -um incorrigível amor pela maldade-, uma insaciável ânsia pela acção do tipo mais difícil e perigoso. O nosso «porta-estandarte» é um filósofo que imagina que uma mentira que mata tem mais peso do que uma aliteração ou uma antítese; que pensa ser uma experimentação fatal na paz de uma família uma coisa melhor do que observar as palpitações no coração de uma pulga numa bomba de ar; que maquina a ruína dos seus amigos como um exercício para o seu entendimento e apunhala homens na escuridão para obstar ao ennui.

WILLIAM HAZLITT, Characters of Shakespeare's Plays, in HAROLD BLOOM, Shakespeare, The Invention of the Human, London, Fourth Estate, 1999, pp. 432-33.

Terça-feira, Maio 09, 2006

A vaca está ali



'A vaca está ali', disse Ansell acendendo um fósforo e segurando-o sobre o tapete. Ninguém falou. Ele esperou até que a ponta do fósforo caísse. Então, disse outra vez, 'Ela está ali, a vaca. Ali, agora.'
'Não o provaste', disse uma voz.
'Provei-o a mim mesmo.'
'Eu provei a mim mesmo que ela não está', disse a voz. 'A vaca não está ali.' Ansell franziu o sobrolho e acendeu outro fósforo.
'Ela está ali para mim', declarou. 'Não me importa se ela está ali para ti ou não. Esteja eu em Cambridge, na Islândia, ou morto, a vaca estará ali.'
Era filosofia. Discutiam a existência dos objectos. Existem eles só quando há alguém para olhar para eles?, ou têm uma existência real que lhes é própria? É tudo muito interessante, mas ao mesmo tempo difícil. Daí a vaca. Ela parecia tornar as coisas mais fáceis. Ela era tão familiar, tão sólida, que, certamente, as verdades que ilustrava tornar-se-iam, com o tempo, igualmente familiares e sólidas. Está a vaca ali ou não? Isto era melhor que decidir entre objectividade e subjectividade. Assim, em Oxford, precisamente ao mesmo tempo, alguém perguntava 'Como é que são os nossos quartos nas férias?'
'Vê lá, Ansell. Eu estou ali - no prado - a vaca está ali. Tu estás ali - a vaca está ali. Concordas até aqui?'
'E então...?'
'E então, se tu vais, a vaca fica; mas se eu for, a vaca vai. Ora, o que é que acontecerá se tu ficares e eu for?'
Várias vozes gritaram que isto era fazer jogos de palavras.
'Eu sei que é', respondeu, brilhante, o orador e o silêncio caiu de novo enquanto, honestamente, tentavam considerar cuidadosamente o assunto.
Rickie, em cujo tapete se deixavam cair os fósforos, não desejava participar na discussão. Era demasiado difícil para ele. Ele nem sequer conseguia fazer jogos de palavras. Se falasse, faria simplesmente figura de parvo. Preferia escutar e ver o fumo do tabaco a esgueirar-se pelo assento da janela para o tranquilo ar de Outubro. Conseguia ver também o pátio, e o gato do colégio importunando o cágado do colégio, e os homens da cozinha com as bandejas da ceia sobre as suas cabeças. Comida quente para um - aquela devia ser para o professor de Geografia, que nunca entrava na sala de jantar; comida fria para três, aparentemente a meia coroa por cabeça, para alguém que ele não conhecia; comida quente à la carte - evidentemente para as senhoras que frequentavam a escada seguinte; comida fria para dois, a dois xelins - indo na direcção dos aposentos de Ansell, e, quando a comida passava sob o candeeiro, viu que eram merengues de novo. Depois, começaram a chegar as empregadas para fazer as camas, tagarelando alegremente, e pôde ouvir a empregada de Ansell dizer 'Oh, raio!' quando descobriu que tinha de pôr a toalha de mesa. Como não soprava a mínima aragem, os grandes ulmeiros estavam imóveis e pareciam ainda na glória do pino do Verão, pois a escuridão ocultava as manchas amarelas das folhas e os seus contornos ainda se arredondavam contra o céu suave. Aqueles ulmeiros eram dríades - assim Rickie acreditava, ou pretendia, e a linha entre as duas coisas é mais subtil do que admitimos. Em todo o caso, eram árvores-fêmeas e, durante gerações, tinham ludibriado os estatutos do colégio pela sua residência nos lugares da mocidade.
Mas, então e a vaca? Voltou a ela com um sobressalto, pois isto nunca resolveria o problema. Também ele tentaria considerar cuidadosamente o assunto. Estava ela ali ou não? A vaca. Ali ou não. Forçou os olhos pela noite dentro.
Ambas as possibilidades eram atraentes. Se ela estava ali, outras vacas estariam ali também. A escuridão da Europa estava salpicada de vacas e no Extremo Oriente os seus flancos brilhavam ao sol nascente. Grandes manadas delas estavam mordiscando a erva em pastagens onde nenhum homem foi nem nunca terá de ir, ou chapinhavam com água pelos joelhos nas margens de rios intransponíveis. E este, além do mais, era o ponto de vista de Ansell. No entanto, a visão de Tilliard fazia sentido. Podia fazer-se pior do que seguir Tilliard e supor que a vaca não estava ali, a menos que se estivesse lá para a ver. Então, um mundo sem vacas estendeu-se em redor dele. Contudo, só tinha de deitar uma olhadela para um campo e clique!, ele ficaria, subitamente, radiante de vida bovina.
De repente, apercebeu-se que isto, mais uma vez, nunca resolveria o problema. Como de costume, tinha acertado completamente ao lado e estava a sobrecarregar a filosofia com pormenores toscos e absurdos. Pois se a vaca não estava ali, o mundo e os campos não estariam ali também. E o que importariam a Ansell os flancos ao sol e os rios intransponíveis? Rickie repreendeu a sua alma desprezível e desviou os olhos da noite que o tinha levado a tão absurdas conclusões.

E. M. FORSTER, The Longest Journey, Harmondsworth, Penguin, 1989, pp. 3-5.

Segunda-feira, Maio 08, 2006

Religião e moralidade


A moralidade não pode ser independente da religião, porque não só é uma consequência da religião - quer dizer, da relação que uma pessoa tem com o mundo -, como está também incluída por implicação na religião. Toda a religião é uma resposta à pergunta pelo sentido da vida. E a resposta religiosa inclui uma certa exigência moral que umas vezes segue e outras precede a explicação do sentido da vida. É possível responder à pergunta da maneira seguinte: o sentido da vida reside no bem-estar pessoal, portanto, faz uso de toda a boa fortuna que te esteja disponível. Ou o sentido da vida reside no bem-estar de um agregado de pessoas, portanto, serve este grupo com toda a tua força. Ou: o sentido da vida reside no cumprimento da vontade d'Aquele que te deu a vida, portanto, esforça-te o mais que puderes para conhecer essa vontade e para a cumprir. Ou a mesma pergunta pode ser respondida desta maneira: o sentido da tua vida reside no teu próprio gozo pessoal e esse é o fito da vida humana. Ou: o sentido da tua vida reside no serviço àquele grupo de pessoas em que te contas como membro, portanto, esse é o teu fito; ou: o sentido da tua vida reside no serviço a Deus, portanto, é esse o teu fito.
A moralidade está incluída na explicação da vida dada pela religião e não pode em nenhum sentido ser separada da religião. (...)
Uma filosofia fundada numa compreensão da vida humana e confinada ao bem-estar do homem nunca estará em posição de provar a uma pessoa racional - que sabe que pode morrer a qualquer instante - que é bom para ela que ela mesma tenha de negar o seu próprio e desejado, apreciado e indubitado bem-estar e fazê-lo, não pelo bem dos outros (porque essa pessoa nunca conhecerá os resultados dos seus sacrifícios), mas, simplesmente, porque tal é necessário e valioso e é um imperativo categórico.
Não é possível provar isto do ponto de vista da filosofia pagã. Para provar que todos os homens são iguais e que é melhor para um homem dar a sua própria vida em serviço dos outros do que obrigá-los a servi-lo, passando por cima da vida deles, a relação com o mundo tem de ser definida doutra maneira: tem de se mostrar que a posição do homem é tal que não há nada mais que ele possa fazer do que isso, porque o sentido da vida encontra-se apenas no cumprimento da vontade d'Aquele que o enviou para aqui; e a vontade d'Aquele que o enviou é a de que ele deve dar a sua vida ao serviço dos outros. Só a religião é que pode produzir este tipo de mudança na relação do homem com o universo.
(...)
Afirmar que o progresso social produz a moralidade é o mesmo que sugerir que a construção de fogões produz o calor.
O calor é produzido pelo sol: os fogões só podem produzir calor quando têm lenha no interior, i.e. um produto do sol. A moralidade procede da religião precisamente da mesma maneira. Só quando o resultado da influência religiosa, a saber, a moralidade, é tornado uma parte das pessoas podem as formas sociais da vida levar à moralidade.
Os fogões podem acender-se e libertar então calor, ou podem não ser acesos e permanecerem frios. Exactamente da mesma maneira as formas sociais da vida podem conter moralidade e depois a moralidade influenciar a sociedade, ou podem não conter moralidade e a sociedade ficar sem qualquer influência moral.
(...)
As tentativas de fundar uma moralidade fora da religião são semelhantes ao que as crianças fazem quando, desejando replantar qualquer coisa de que gostam, a arrancam sem as raízes e plantam-na, sem raízes, no solo. Não pode haver qualquer moralidade genuína, não-hipócrita, sem uma base religiosa, precisamente como não pode haver uma planta sem raízes.

LEO TOLSTOY, "Religion and Morality", A Confession and Other Religious Writings, trad. Jane Kentish, Harmondsworth, Penguin, 1987, pp. 144, 146, 149-150.

Quinta-feira, Maio 04, 2006

O que é o Eu?

O que é o Eu?
Suponhamos que um homem se põe à janela para ver aqueles que passam. Se eu for a passar, posso dizer que ele se colocou ali para me ver? Não; porque ele não pensa em mim em particular. Mas será que aquele que ama alguém pela beleza ama realmente essa pessoa? Não; porque as bexigas, que matarão a beleza sem matar a pessoa, farão com que ele deixe de a amar.
E se alguém me ama pelo meu discernimento, memória, esse não me ama, pois eu posso perder essas qualidades sem me perder a mim mesmo. Onde está então este Eu, se não está nem no corpo, nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, a não ser por estas qualidades que não me constituem, visto que são perecíveis? Pois é impossível e seria injusto amar a alma de uma pessoa em abstracto, quaisquer que fossem as qualidades que pudesse haver nela. Nós, então, nunca amamos uma pessoa, mas somente qualidades.
Não trocemos mais, então, daqueles que são honrados pela sua categoria e cargo, pois só amamos uma pessoa por causa de qualidades emprestadas.

BLAISE PASCAL, Pensées, 323 [Brunschvicg], Paris, Le Livre de Poche, 1993, pp. 152-153.

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

A Aventura da Memória


O género humano pensante, quer dizer, a centésima milésima parte do género humano, quando muito, acreditou durante muito tempo, ou, pelo menos, repetiu amiúde, que não temos ideias senão pelos nossos sentidos e que a memória é o único instrumento pelo qual poderemos juntar duas ideias e duas palavras.
É por isso que Júpiter, representando a natureza, foi amoroso de Mnemósine, deusa da memória, desde o primeiro momento em que a viu; e desse casamento nasceram as nove musas, que foram as inventoras de todas as artes.
Esse dogma, sobre o qual são fundados todos os nossos conhecimentos, foi recebido universalmente e até a Nonsobre, ainda que ele fosse uma verdade, o acolheu desde o seu nascimento.
Algum tempo depois, veio um argumentador, meio geómetra, meio quimérico, que argumentou contra os cinco sentidos e contra a memória; e ele disse ao pequeno número do género humano pensante: «Vós tende-vos enganado até ao presente, pois os vossos sentidos são inúteis, pois as ideias estão inatas em vós antes que algum dos vossos sentidos possa agir, pois vós tínheis todas as noções necessárias quando viestes ao mundo; vós sabíeis tudo sem nunca terdes sentido nada; todas as vossas ideias, nascidas convosco, estavam presentes à vossa inteligência, chamada alma, sem auxílio da memória. Essa memória não presta para nada.»
A Nonsobre condenou esta proposição, não porque era ridícula, mas porque era nova: contudo, logo que, em seguida, um Inglês se meteu a provar, e mesmo longamente, que não havia de todo ideias inatas, que nada era mais necessário que os cinco sentidos, que a memória servia de muito para reter as coisas recebidas pelos cinco sentidos, ela condenou os seus próprios sentimentos, porque se tinham tornado os de um Inglês. Por conseguinte, ordenou ela ao género humano que, doravante, acreditasse nas ideias inatas e não mais nos cinco sentidos e na memória. O género humano, em vez de obedecer, troçou da Nonsobre, a qual entrou em tal cólera que quis fazer queimar um filósofo. Pois esse filósofo tinha dito que era impossível termos uma ideia completa de um queijo, a não ser que o tivéssemos visto e comido; e o celerado ousou até avançar que os homens e as mulheres não teriam jamais podido trabalhar em tapeçaria, se não tivessem agulhas e dedos para as enfiar.
Os liolistas juntaram-se à Nonsobre pela primeira vez na sua vida, e os sejanistas, inimigos mortais dos liolistas, reuniram-se, por um momento, com eles. Chamaram em seu auxílio os antigos dicastéricos, que eram grandes filósofos; e todos juntos, antes de morrerem, proscreveram a memória e os cinco sentidos e o autor que tinha dito bem dessas seis coisas.
Um cavalo esteve presente no juízo pronunciado por esses senhores, ainda que não fosse da mesma espécie e que houvesse entre si e os outros muitas diferenças, como a do tamanho, da voz, da identidade, das crinas e das orelhas; e esse cavalo, dizia eu, que tinha tanto de senso como de sentidos, falou um dia com Pégaso na minha estrebaria; e Pégaso foi narrar esta história às musas com a sua ordinária vivacidade.
As musas, que desde há cem anos vinham favorecendo singularmente o país, durante muito tempo bárbaro, em que aquela cena se passara, ficaram extremamente escandalizadas; elas amavam ternamente Memória ou Mnemósine, sua mãe, de quem essas nove filhas são devedoras de tudo o que sabem. A ingratidão dos homens irritou-as. Não fizeram qualquer sátira contra os antigos dicastéricos, os liolistas, os sejanistas e a Nonsobre, porque as sátiras não corrigem ninguém, irritam os tolos e fazem-nos ainda piores. Elas imaginaram um meio de os esclarecer punindo-os. Os homens tinham blasfemado contra a memória; as musas tiraram-lhes esse dom dos deuses a fim de que aprendessem duma vez por todas como as coisas são sem o seu auxílio.
Aconteceu então que, a meio de uma bela noite, todos os cérebros se entorpeceram, de maneira que, na manhã seguinte, todo o mundo acordou sem a mínima recordação do passado. Alguns dicastéricos, deitados com as suas mulheres, pretenderam abeirar-se delas por um resto de instinto independente da memória. As mulheres, que não costumam ter, senão muito raramente, o instinto de abraçar seus maridos, rejeitaram as suas carícias repugnantes com aspereza. Os maridos zangaram-se, as mulheres gritaram e a maior parte dos casais chegou a vias de facto.
Os cavalheiros, encontrando um capelo [bonnet carré], serviram-se dele para certas necessidades que nem a memória, nem o bom senso aliviam. As senhoras empregaram os vasos do seu toucador [les pots de leur toilette] nos mesmos usos. Os domésticos, não se lembrando mais do contrato que haviam feito com os seus senhores, entraram nos quartos destes sem saber onde estavam; mas, como o homem, nasce curioso, abriram todas as gavetas; e como o homem ama naturalmente o brilho da prata e do ouro, sem para isso ter necessidade da memória, tomaram tudo o que lhes caiu nas mãos. Os amos quiseram gritar "agarra que é ladrão!", mas, tendo a ideia de ladrão saído do seu cérebro, a palavra não lhes pôde chegar à língua. Tendo esquecido o seu idioma, todos articulavam sons informes. Era bem pior que em Babel, onde cada um inventava de improviso uma língua nova. O sentimento inato no senso dos jovens criados pelas mulheres formosas agiu com tal potência, que esses insolentes, sem pensar, se atiraram às primeiras mulheres ou raparigas que encontraram, fossem taberneiras, fossem presidentas; e elas, não se lembrando mais dos ensinamentos do pudor, consentiram-nos com toda a liberdade.
Era preciso jantar; ninguém sabia mais como tinha de fazer para isso. Ninguém tinha estado no mercado, nem para vender, nem para comprar. Os domésticos haviam tomado os hábitos dos amos e os amos os dos domésticos. Todo o mundo se olhava com olhos broncos. Aqueles que tinham mais esperteza para se procurarem o necessário (e esses eram as gentes do povo) encontraram um pouco com que viver: aos outros tudo lhes faltava. O primeiro presidente, o arcebispo, andavam todos nus, e os seus palafreneiros estavam, uns em mantos vermelhos, outros em dalmáticas: todos estavam confundidos, todos iam perecer de miséria e de fome por não se entenderem.
Ao fim de alguns dias, as musas tiveram pena daquela pobre raça: elas são boas, ainda que, por vezes, façam sentir a sua cólera aos maus; elas suplicaram então à sua mãe que restituísse àqueles blasfemos a memória que lhes tinha tirado. Mnemósine desceu à morada dos contrários na qual a tinham insultado com tanta temeridade e falou-lhes com estas palavras:
'Imbecis, eu vos perdoo; mas tornai a lembrar-vos que sem os sentidos não há de todo memória e que sem a memória não há de todo espírito.'
Os dicastéricos agradeceram-lhe assaz secamente e esperaram que se lhes fizessem as demonstrações. Os sejanistas puseram toda aquela aventura na sua gazeta; notou-se que não estavam ainda curados. Os liolistas fizeram do caso uma intriga de corte. O mestre Cogé, embasbacado da aventura, e não tendo percebido nada dela, disse aos seus alunos do quinto ano este belo axioma: 'Non magis musis quam hominibus infensa est ista quae vocatur memoria.'

VOLTAIRE, "Aventure de la mémoire", Romans et contes, Paris, Garnier-Flammarion, 1995, pp. 691-694.